As Primeiras Peças: Por Dentro do Acervo Lendário de J. Nallin
Nas partes 7 e 8 da visita ao colecionador J. Nallin, Wagner Belucci percorre um expositor com dezenas de peças forjadas, esculpidas e certificadas — incluindo a própria faca que deu início a toda a coleção.
NESTE GUIA
As Peças Que Começaram Tudo
Na parte 8, Wagner sobe ao expositor de J. Nallin para rever exatamente o que deu origem ao acervo: as primeiras aquisições do grupo Caçadores de Facas. No topo, uma faca Taurus, visivelmente desgastada pelo uso, ocupa o lugar de honra — não pelo acabamento, mas pela história que carrega como a peça que “simboliza” todo o expositor.
A mais emocionante, porém, é uma lâmina pequena que pertenceu ao pai de Nallin, bombeiro aposentado já falecido. Originalmente uma lâmina grande, foi reduzida ao longo dos anos pelo próprio uso do pai como cortador de unha — hoje ocupa a primeira “estampa” do expositor, uma homenagem silenciosa que Nallin faz questão de manter entre as peças mais valiosas da coleção, mesmo sem nenhum valor comercial.
Genuína, Certificada, Guardada
Entre as peças mais antigas do acervo estão exemplares de fábrica ligados à devoção de Nossa Senhora Aparecida e à cutelaria Veteranos, de São Paulo. Nallin faz questão de mostrar que são “peças genuínas” — e prova isso guardando os certificados originais de cada uma, um hábito que considera essencial para quem coleciona com seriedade.
Não é sobre exibir apenas a faca: é sobre poder comprovar a procedência. Para Nallin, um expositor cheio de peças bonitas vale menos do que um acervo em que cada certificado ainda acompanha sua faca correspondente, ano após ano.
A Chaira É Amiga da Faca — Só Que Poucos Sabem Usar
Ao passar por um kit de churrasco, Nallin interrompe a filmagem para deixar um recado: a chaira é “o equipamento amigo da faca” e é “crucial” para o dia a dia — mas só funciona na mão de quem entende o que está fazendo. “Não é passar para lá ou para cá”, ele avisa, “tem que ter o lado certo do fio”.
O ponto central é entender a linha do fio e o grau da faca — ele cita ângulos como 30º, 45º e 60º ao explicar que o resultado da chaira depende de reconhecer esse ângulo antes de tocar a lâmina. Sem esse conhecimento, a chaira não recupera o fio: só desgasta a lâmina sem necessidade.
É um lembrete simples, mas que carrega peso: manutenção de fio não é sobre ter o equipamento certo, é sobre saber ler a própria faca antes de tocar nela.
Cabo Invertido: A Raridade em Aço Carbono 1070
Uma das peças que mais impressiona Wagner na visita é uma faca antiga, forjada em aço carbono 1070, com o cabo montado de forma invertida — não por cima da lâmina, como é padrão, mas atravessando pelo meio, exigindo que os pinos de fixação fossem furados em outro ponto para travar a montagem. Nallin não sabe identificar o cuteleiro que a fez, mas reconhece o nível do trabalho: “é um artista muito bom, muito, muito bom”.
Ao lado dela, duas facas “teteia” de estilo argentino trazem outro traço raro: acabamento batido a frio, deliberadamente rústico, e cabos que não são ergométricos — são levemente tortos, moldados para se adaptar à mão esquerda ou à direita de quem as empunha, e não ao contrário.
São duas lições de bastidor em uma só passagem: nem toda faca de coleção segue o padrão de montagem esperado, e às vezes a “imperfeição” do cabo é, na verdade, engenharia ergonômica disfarçada de rusticidade.
Damasco, Nitreto de Titânio Camaleão e o Perigo de Subestimar uma Adaga
A peça que o próprio Nallin classifica como “a mais top” de toda a coleção não é a mais antiga nem a maior: é uma faca com revestimento de nitreto de titânio camaleão, que muda de coloração conforme o ângulo em que a luz bate na lâmina — um efeito que Wagner só acredita ao ver ao vivo, girando a peça na mão.
Já entre as facas em Damasco, a maioria vinda do Reino Unido, destacam-se uma skinner em camadas, uma faca de chef e um exemplar apelidado “Fuscão Preto”, todas com o desenho assinado por um amigo cuteleiro do grupo — reforçando que, para Nallin, Damasco de verdade “dispensa comentários”.
Mas a passagem mais reveladora é um aviso, não uma vitrine: uma adaga funcional do acervo já cortou os quatro dedos de Nallin só de ser erguida do expositor, sem qualquer movimento brusco. É o lembrete que fecha a visita — toda peça de coleção que mantém o fio original continua sendo, antes de tudo, uma faca de verdade.
(Vídeo: Caçadores de Facas · @Cacadoresdefacas)