A Coleção Que Nasceu do Sorteio, Não do Dinheiro
Depois de mais de três anos dentro do grupo Caçadores de Facas, o colecionador Nalin já somou quase 340 peças recebidas em sorteios — e, segundo ele mesmo, nunca vendeu nenhuma.
NESTE GUIA
Uma coleção que nasceu do sorteio, não do dinheiro
Logo no início da visita, Wagner pergunta quantas peças Nalin já tem catalogadas: são 20 na parte três e mais 20 na parte quatro, só “por enquanto”. Ao longo da conversa, Nalin revela o número que sustenta essa coleção inteira: já são quase 340 peças conquistadas em sorteios ao longo dos anos dentro do grupo Caçadores de Facas — e, segundo ele, nenhuma delas foi comprada. Muitas, inclusive, ele repassou como presente para outras pessoas.
A lógica de Nalin não é acumular por acumular. Ele só entra em um sorteio quando existe uma peça específica que desperta o interesse dele — e, a partir daí, vai atrás dela até conseguir. É por isso que, segundo ele mesmo explica, cada peça ali tem uma particularidade, uma história de escolha por trás, e não é fruto do acaso.
Para Wagner, esse é o retrato mais bonito da arte da cutelaria: ela transforma desconhecidos em família. Pessoas que nunca se viram na vida acabam se conhecendo através das facas, do grupo, dos sorteios — e o que começa como hobby vira laço afetivo, inclusive entre famílias espalhadas por diferentes países, como fica claro quando Nalin mostra a bandeira do Brasil hasteada ao lado das lembranças de filhos que moram nos Estados Unidos e no Canadá.
O ritual do respeito: pedir licença antes de cada peça
Antes de tocar em qualquer faca da coleção, Wagner faz questão de deixar registrado: ele pede licença para mexer em cada peça, e diz que já pediu licença para todas as que estão ali. Não é figura de linguagem — é um princípio de manuseio que ele defende abertamente durante a visita.
O motivo, segundo ele, é simples e direto: uma peça artesanal não é brincadeira, ela pode machucar de verdade, e por trás de cada lâmina existe um artesão, um mestre que transformou um aço que “podia ser jogado fora” em uma obra respeitável. Esse respeito pelo processo — do aço bruto até a peça finalizada — é tratado como parte inseparável de apreciar uma coleção como a de Nalin.
Aços, cabos e acabamentos que chamaram atenção na visita
Entre as 20 peças da parte três, aparece uma faca de aço carbono 1070 fosfatizado com cabo em madeira e osso de chifre de búfalo, e uma faca-folha já assinada pelo próprio cuteleiro. Mais adiante, no meio de peças mais simples, surge de surpresa uma lâmina em damasco de 250 camadas — combinação de aços que Wagner e Nalin citam como 1095 e 15N20 — descrita como “o suprassumo da cutelaria”.
Outro detalhe técnico que se repete: peças “matrizadas”, que segundo os dois têm um fio de navalha, e uma delas mostra o acabamento “Brut Forge” à mostra — a casca bruta da forja, sem polimento, deixada propositalmente rústica. Wagner também chama atenção para a diferença entre pinos batidos e pinos abaulados em uma das facas, destacando que o acabamento abaulado não sai mais depois de fixado.
Os materiais de cabo variam bastante ao longo da visita: madeira, osso estabilizado, madre-pérola, cabo translúcido, latão dourado e até um cabo que Wagner arrisca ser inox combinado com zamak (“salvo engano”, como ele mesmo pondera). Várias peças também trazem o acabamento “mosqueado”, citado como recurso que ajuda a não grudar ao cortar carne — útil tanto em facas de uso quanto em fileteiras.
Quando dá defeito, o grupo resolve: o suporte como parte da experiência
Perto do fim da parte quatro, Wagner pergunta diretamente se os Caçadores de Facas dão suporte a quem compra ou recebe uma peça. Nalin é honesto: já houve falhas, e uma ou duas peças precisaram voltar para serem refeitas — mas ele garante que hoje está tudo sob controle, e o resultado final ficou melhor do que estava antes.
Wagner reforça esse ponto como diferencial do grupo: quando dá problema, o suporte é “100%, 110%” — o item volta, o problema é resolvido, e o objetivo final declarado é sempre o mesmo, nas palavras dele: “caçador feliz”.
Peças que marcam datas e laços de família
Fechando o lote de 20 peças da parte três, Nalin mostra uma faca comemorativa de 3 anos do grupo, numerada “009”, com detalhe em folha de ouro na guarda. Já na parte quatro, aparece uma peça numerada “002” — segundo Nalin, uma das primeiras Hunters que ele conseguiu através do grupo, e que ele carrega consigo até hoje.
Além dos números que marcam a linha do tempo dentro do grupo, a visita também mistura coleção e vida pessoal: Nalin mostra uma peça ligada à lembrança dos filhos, e conta que a filha mora nos Estados Unidos (perto de Boston) com cinco peças da coleção, enquanto o filho está no Canadá. É esse cruzamento entre objeto colecionável e história de família que dá o tom emocional da conversa entre os dois.
(Vídeo: Caçadores de Facas · @Cacadoresdefacas)