Legacy of the Blade 001: os Últimos Retoques Antes do Legado
Depois de dois dias de filmagem, a Legacy of the Blade 001 chega aos retoques finais: pintura da bainha, forma do cabo, parafina nos poros e o brunimento que fecha a peça.
NESTE GUIA
A pintura da bainha: cor, contraste e paciência
Thiago usa uma tinta própria para couro, que depois de aplicada na bainha não sai mais. Ele pinta primeiro a parte interna e depois a externa, buscando combinar as duas. A cor escolhida depende da preferência de cada cliente, mas Thiago gosta de usar tons que contrastem com a cor do cabo — já que o cabo fica para fora da bainha, prefere uma cor que se aproxime dele visualmente.
Quanto mais tinta é aplicada, mais escura a bainha fica, chegando a um tom que os dois descrevem como “marrom crocodilo”. É esse controle na quantidade de tinta que permite deixar a peça mais clara ou mais escura, conforme o efeito desejado.
A secagem completa demora, e Thiago prefere deixar a bainha de um dia para o outro. Antes de enviar qualquer peça para o cliente, ele espera pelo menos dois dias de secagem: o transporte pode levar de 3 a 5 dias dependendo do estado, e se a bainha ainda estiver úmida dentro da embalagem, ela oxida. Embrulhar em plástico filme para proteger não resolve, porque o plástico gruda no couro ainda mole — por isso a paciência de esperar secar bem antes de despachar.
Do chucrão bruto ao cabo sorocabano
O cabo começa como um bloco quadrado e bruto — um “chucrão”, nas palavras dos dois. Thiago inicia o lixamento com uma lixa grossa, de grão 36, começando pelos pinos, que precisam ser lixados com água para não esquentar e derreter a cola que os fixa.
Conforme o desbaste avança, o cabo full tang vai ganhando a forma característica do estilo sorocabano. Um dos detalhes mais delicados é o encaixe de dedo na parte interna do cabo, feito com bastante calma — é esse encaixe que garante a zona de conforto na empunhadura.
Depois do desbaste grosso, Thiago troca para uma lixa mais fina, na casa do grão 320, para tirar os riscos e refinar o acabamento. Ele explica que cabos de resina exigem uma sequência de grãos mais longa, indo até 1000 ou 2000, enquanto cabos de madeira pedem menos etapas, já que o objetivo principal é só remover os riscos. Cerca de 90% do trabalho é feito na lixadeira, mas os 10% finais são sempre manuais — segundo ele, o acabamento manual nunca deixa de ser necessário.
Parafina, cera de abelha e carnaúba: o cuteleiro também é químico
Antes de finalizar o cabo, Thiago aquece um pedaço de parafina (como uma vela) e passa sobre a madeira para tampar os poros. Ele explica que a parafina penetra nos poros da madeira e protege contra a umidade, sendo uma alternativa melhor do que deixar a madeira exposta. Outras opções citadas para o mesmo fim são a cera de abelha e a cera de carnaúba.
O efeito aparece imediatamente: a cor do cabo muda de forma visível assim que a parafina penetra, confirmando que o tratamento está de fato entrando nos poros da madeira.
A conversa resume bem o ofício: depois de pintor e costureiro, o cuteleiro também precisa entender de química. Sobre a durabilidade da peça, Wagner reforça que uma faca full tang em aço carbono é feita para durar a vida toda, desde que se tome o cuidado básico de não guardar a peça molhada e fazer a manutenção contra a oxidação do carbono.
Polimento e brunimento: o toque final antes do corte
O cabo é levado à politriz para o polimento final. Thiago alerta que, mesmo sem fio de corte ainda, a lâmina pode enroscar no pano de polimento e machucar quem estiver segurando a peça — por isso o cuidado redobrado nessa etapa. Depois de polida, a peça passa por uma limpeza para tirar o excesso de sujeira acumulada, que segundo os dois é surpreendentemente grande.
Já na bainha, a etapa final é o brunimento: o acabamento que deixa as bordas ásperas do couro lisas. Thiago faz isso com um pedaço de chifre de cervo, alisando as bordas manualmente. Ele comenta que existem ferramentas próprias para brunir à venda no Mercado Livre, mas prefere o método tradicional com o chifre.
Com a bainha brunida e as bordas lisas, o encaixe final é testado: a lâmina desliza para dentro e para fora da bainha usando apenas o polegar, sem esforço — o sinal de que o ajuste ficou correto.
Legacy of the Blade 001: as especificações do legado
A peça final é uma faca de chefe de cozinha com 10 polegadas de lâmina em aço 1070, com 3 mm de espessura. O cabo é em material IP, no formato sorocabano, com peça full tang. A bainha é em couro bovino, 100% artesanal — cortada, costurada à mão e pintada à mão, sem nenhuma etapa industrial.
O nome escolhido para a peça é Legacy of the Blade 001 — o legado da lâmina — porque quem acompanhou o vídeo viu o processo do início ao fim, do passo mais simples (cortar um pedaço de couro) ao mais complexo. Para Wagner, é esse o sentido de deixar um legado na cutelaria: a marca de quem fez a peça permanece nela.
A peça, feita ao longo de dois dias de filmagem, foi anunciada para leilão. Como forma de agradecimento pelo tempo dedicado, Wagner presenteou Thiago com um abridor de garrafa personalizado da marca Caçadores de Facas.
(Vídeo: Caçadores de Facas · @Cacadoresdefacas)