Do Aço Bruto ao Fio: os Bastidores da Legacy of the Blade 001
Em uma visita à oficina da THR, o cuteleiro Thiago (Thagão) parte do zero de uma barra chata de aço-carbono 1070 para erguer, só por desbaste, a faca Legacy of the Blade 001 — sem uma única marretada de forja.
NESTE GUIA
O projeto: Legacy of the Blade 001
Wagner visita a oficina do cuteleiro Thiago, apresentado no vídeo como “Thagão”, para acompanhar do início ao fim a fabricação de uma peça batizada Legacy of the Blade 001. A proposta, combinada antes das câmeras ligarem, é começar literalmente do zero, com Thiago explicando cada etapa para quem nunca viu como nasce uma faca artesanal.
A peça escolhida é uma faca de cozinha inspirada no perfil da lâmina japonesa, mas com uma diferença estrutural importante: em vez do cabo de espiga oculta comum nas facas chef japonesas, ela recebe um cabo full tang, com a espiga percorrendo toda a extensão do cabo. Nesta peça específica não entra buster (guarda) em latão — a versão com buster, mostrada por Thiago como referência, é a mesma lâmina, só que com esse detalhe a mais para dar contraste visual ao cabo.
Um ponto importante que Wagner faz questão de esclarecer: essa faca não é forjada. Ela nasce de um aço virgem comprado já pronto, e toda a forma final é obtida por desbaste — traçar o desenho sobre a barra, cortar e desgastar progressivamente na lixadeira até a peça tomar a forma desejada.
1070 x 5160: o aço certo para cada função
Thiago explica a lógica por trás da escolha do aço 1070, com 3 mm de espessura, para essa lâmina. Segundo ele, o 1070 tem mais propriedade de carbono e por isso entrega melhor retenção de fio — ideal para lâminas de corte, como uma faca de churrasco.
Em contraste, ele cita o 5160 (que chama de aço “mola”), que tem menos propriedade de carbono, mas compensa com mais elasticidade. É essa flexibilidade que torna o 5160 mais indicado para peças como dagas e espadas, que dependem da capacidade de flexionar sem trincar.
A escolha de material, portanto, não é sobre qual aço é “melhor” isoladamente, mas qual aço serve à função da peça: fio e retenção de corte pedem 1070; flexibilidade estrutural pede 5160.
Full tang x espiga oculta
Um dos pontos técnicos centrais do vídeo é a diferença entre os dois estilos de cabo. As facas chef japonesas tradicionais costumam usar espiga oculta, com um cabinho reto embutido internamente. Já a peça que Thiago está construindo usa cabo full tang, no qual o metal da espiga se estende por toda a extensão e largura do cabo.
Segundo Thiago, essa escolha estrutural garante mais resistência à peça: uma faca pensada para uso mais pesado se beneficia da espiga total em vez da versão oculta, mais discreta, porém menos robusta.
As medidas que definem o equilíbrio
Antes de cortar, Thiago detalha as proporções da peça: a lâmina terá cerca de 26 cm, e o cabo — dimensionado para uma pegada masculina confortável — entre 13 e 14 cm. Somados, o comprimento total fica em torno de 40 cm.
Para Thiago, esse é o padrão “tradicional” da cutelaria: nem grande demais, nem pequena demais, um tamanho que resulta numa faca razoavelmente equilibrada e confortável de manusear no dia a dia.
Aço carbono pede cuidado, sempre
Wagner e Thiago reforçam um ponto que atravessa qualquer lâmina de aço carbono, seja sanmai, gomai ou damasco: sem cuidado, ela oxida. Mesmo o damasco de melhor qualidade enferruja se exposto sem manutenção, e até o aço inoxidável pode oxidar dependendo da situação de exposição.
A conclusão prática de Thiago é direta: o aço carbono exige um pouco mais de carinho do colecionador ou usuário do que o inox, para não correr o risco de enferrujar.
O desafio das catanas: tempera e empenamento
Wagner aproveita a visita para puxar um tema que promete um próximo capítulo: a fabricação de catanas, especialidade de Thiago. Os dois deixam claro um ponto que confunde muita gente no mercado: catana funcional não existe em aço inox — é sempre aço carbono.
Thiago descreve por que a têmpera de uma catana é uma das etapas mais difíceis da cutelaria: o comprimento da lâmina torna o processo de tempera complicado, e é praticamente impossível temperar uma catana sem que ela empene, exigindo depois muitas horas de trabalho só para desempenar e alinhar a lâmina. Ele afirma ter um método próprio para lidar com essa etapa.
O risco é real: se a têmpera falhar e a lâmina trincar, o aço pode ser perdido por completo. Caso sobre alguma ponta maior, é possível tentar aproveitar para uma lâmina menor — mas antes é preciso recozer toda a peça, amolecendo o aço, para poder trabalhar nele de novo.
(Vídeo: Caçadores de Facas · @Cacadoresdefacas)