Carbono, Fosfato e Osso: Os Segredos de uma Coleção Cheia de História
Logo nas primeiras facas desembainhadas nessa visita, o colecionador revela que usa a mesma shashimi há 20 anos, já garantiu uma réplica idêntica dela e ainda mantém anotada a especificação de cada peça — prova de que colecionador de verdade não confia só na memória.
NESTE GUIA
Carbono ou inox: a escolha que não é modismo
Perguntado na cara se prefere aço carbono ou inox, o colecionador não titubeia: carbono. O motivo é simples e direto — o fio permanece, não se perde com o tempo como costuma acontecer com o inox no uso pesado. Wagner concorda na hora e reforça que também é adepto do carbono, desde que se saiba cuidar dele.
O ponto de atenção que os dois fazem questão de destacar é justamente esse: saber usar. Muita gente vê a lâmina escurecer na superfície e acha que a peça “enferrujou” e perdeu o corte — engano. É só falta de manutenção básica. Quem cuida do carbono do jeito certo não perde o fio nunca, mesmo depois de décadas, como prova a faca shashimi que o próprio colecionador carrega consigo há 20 anos sem nunca ter perdido o corte.
Fosfatização: a camada que protege sem tirar a alma da lâmina
Nas peças de acabamento “brute forge” — o aço bruto, cru, sem qualquer revestimento — o cuidado precisa ser redobrado. É essa lâmina exposta que mais sofre com oxidação se ficar sem manutenção, e é justamente o que leva muita gente a achar, errado, que a peça “não presta” quando na verdade só precisa de atenção.
Já nas peças fosfatizadas a exigência de cuidado cai bastante, porque o fosfato de manganês é inserido no próprio metal durante o mergulho na hora da forja — ele protege a lâmina contra oxidação de dentro para fora, não é uma camada só de superfície. É a diferença entre uma faca que exige manutenção constante e uma que aguenta o uso pesado com bem menos manha.
Full tang, vazados e a mania boa de anotar cada peça
Entre as peças na mesa, uma faca de cabo em madre pérola, aço carbono e construção full tang chama atenção por um detalhe funcional pouco óbvio: um vazado na lâmina feito especificamente para não deixar o corte de carne criar vácuo — ou seja, a carne não gruda na lâmina no meio do corte. É desenho pensado para quem realmente usa a faca na cozinha ou no churrasco, não só estética.
Outro hábito que o colecionador defende é anotar as especificações de cada peça. A faca shashimi que ele usa há 20 anos tem etiqueta com aço japonês, liga 420J2 e cabo em madeira magnólia registrados — porque, nas palavras dele, é difícil lembrar tudo depois de tanto tempo e tantas peças. Wagner reforça o conselho para quem coleciona: vale sempre deixar anotado o que é cada faca.
Cabos, adornos e placas que contam histórias
A coleção passeia por materiais de cabo bem variados: osso natural, osso estabilizado, madre pérola, madeira roxinho, cabo em zamac numa faca temática de pescaria com abridor de anzol embutido, e até um cabo em rabo de tatu resinado — feito com resina náutica que imita o padrão real do bicho, numa peça pesada que o próprio dono confessa não ter coragem de usar no dia a dia. Há também um quadro de parede em marqueteria com madeira australiana, unindo várias madeiras com resina azul e preta, sem função de corte — puramente decorativo.
Algumas facas têm cabo ou lâmina com formato de cabeça de animal, como uma com cabeça de leão vazada na lâmina e no cabo, e outra com cabeça de javali dourada sobre cabo em osso estabilizado. Outras trazem tatuagens gravadas na lâmina: uma com cabeça de cavalo, guardada como lembrança da filha que morava no Brasil e com quem ele pretendia comprar dois cavalos antes dela ir embora; e uma com escorpião gravado, referência direta ao apelido dele no Rio, “Escorpião Rei”. Tem ainda uma peça temática de Las Vegas — mais de expositor do que de uso — e outra com bainha estilo “motoqueiro fantasma”, puxando pela época em que ele trabalhou de moto em São Paulo.
Peças de uso x peças de guarda: tudo nasce forjado
Um ponto que os dois fazem questão de deixar claro pra quem assiste: não existe enfeite de plástico ali. Todas as peças da coleção são forjadas e funcionais, mesmo as que nunca saem do expositor. A separação que existe é outra — há um conjunto de facas reservado para o dia a dia (entre elas fileteiras/filheteiras, usadas para peixe e churrasco), e outro conjunto de peças raras ou muito pesadas que o colecionador prefere manter guardadas, por respeito à peça ou pelo valor sentimental, mesmo sabendo que poderiam cortar perfeitamente se fossem usadas.
Essa lógica aparece várias vezes ao longo da visita: peças de dois quilos que “aguentam o pau” mas raramente saem do lugar, e peças mais simples que acompanham o colecionador todo santo dia. No fim, é a mesma coleção contando duas histórias — a da faca que trabalha e a da faca que só existe para ser lembrada.
(Vídeo: Caçadores de Facas · @Cacadoresdefacas)